Ácido e Chamas na Morte Eterna – Por Viviane Simone Scholtz

E de repente o dia escureceu, como se uma grande nuvem de tempestade houvesse chegado com a velocidade de um cervo a fugir pelos campos … todas as pessoas que estavam no mercado miraram os céus em busca da causa do fenômeno, e petrificaram ante a imponente vista: sobre eles pairava o maior dragão que qualquer um deles já havia visto em suas curtas vidas. As enormes asas cobriam toda a vila, cada garra das enormes patas guardava o tamanho de uma pessoa, e as douradas órbitas cujo olhar fariam enregelar qualquer criatura mal entrariam em uma casa.
A admirável criatura pousou sobre o morro que se erguia junto à vila, e com as batidas de suas asas ergueu o vento que destelhou parte das casas que se erguiam próximas. Unindo então suas intermináveis asas sobre o corpo, adquiriu aspecto mais esguio. Suas escamas cor do cobre reluziam ao sol cegando parte das pessoas que ousava olhar em sua direção. O odor de enxofre difundiu-se no ar, como prenúncio do destino dos mortais que ousassem bloquear seu caminho.
A voz grave soou como a energia do raio penetrando a terra:
– QUAL DE VOCÊS MÍSEROS MORTAIS É O ASSASSINO QUE MATOU MEU IRMÃO ?
Todos estremeceram … alguns desmaiaram, crianças choraram, mas ninguém ergueu a voz para se apresentar. O silêncio se seguiu interminável sob o olhar das gloriosas pupilas fendidas do dragão … o vento suspiru o início da tarde vila adentro.
– ERGUE-TE, COVARDE, OU INCINERAREI TODA A VILA EM MINHAS CHAMAS !!!”, bradou a criatura infernal.
E dentre o silêncio dos humanos uma voz fina ergueu-se abafada, entoando uma brusca canção de batalha em versos entrecortados, dignos do pior bardo da história. As pessoas se entreolharam em busca da origem da desafinada valentia, e logo notaram o nobre cavaleiro dentre seus compatriotas. Ele não se parecia com um cavaleiro que pudesse ter matado um dragão, sequer trazia cicatrizes de batalha … mas era um cavaleiro e teria de servir. A multidão agiu como uma mente coletiva, afastando-se do nobre pequeno homem e permitindo que uma clareira se formasse ao redor do pobre Valente.
A cabeça do dragão abaixou-se para poder observar melhor a figura que os repugnantes macacos lhe mostravam.
– És tu, criatura imprestável, que mataste de modo covarde meu honrado irmão ?
O cavaleiro titubeou, retrocedeu um passo, mas a balada heróica terrivelmente entoada por Deafsinger ressoou no ar:

“Ele seguia, E nada Valente temia,
Seguia contente, Salvar a donzela inocente !
Das garras temíveis, Ataques horríveis,
Hálito quente, Cor reluzente
Do dragão SilverWorm !
Cavalo veloz, lança atroz
Valente ataca e não mata !
Sua fé que sempre o protege,
Traz-lhe um anjo que preste ?
Ariel, Isael, Gabriel, Rafael ?
Não !
Anjo Manuel !
E Valente contenta-se … ”

A canção feria seus ouvidos, forçando-o a lembrar-se de quem era, e porque matara o temível Silverworm.
– SIM, DRAGÃO ! FUI EU, VALENTE, NOBRE CAVALEIRO PRATEADO QUE VAGA PELO MUNDO, FAZENDO O BEM SEM OLHAR A QUEM, QUE MATOU TEU IRMÃO !!! … mas foi sem querer …
A emenda, no entanto, apenas pareceu piorar a ira do demônio ao invés de aplacar suas chamas.
– SEM QUERER ???? Que queres dizer, não serias capaz de matar um dragão do porte de meu irmão sem intenção ! Engole tua mentira e enfrenta minha vingança com ao menos uma gota de honra !!!
– Espera ! Não ! Eu o matei para salvar uma donzela em perigo, mas ela não era bem donzela e não estava muito em perigo, e … “, Valente olhou ao seu redor em busca de apoio, mas a vila já jazia milagrosamente deserta.
– CALA-TE !!!! “, as palavras draconianas foram seguidas de um sopro de chamas rubras, que engoliu o mercado e tudo o que ele continha.
“Oh, não ! A morte em chamas mais uma vez !”, lamuriou-se mentalmente o nobre cavaleiro … mas não sentiu a dor inegável a qual jamais esqueceria. Teria sido seu corpo consumido tão rapidamente pelo fogo ?
Mas em seus ouvidos ecoou um brado que o tirou do curto transe.
– FEUERSTROM !!! Não permitirei que destruas esta inocente vila !!
… e Valente viu à sua frente uma parede de chamas, e junto dela, a franzina figura de uma garota. Ela mantinha sua mão erguida com visível esforço, como se estivesse retendo a queda de uma montanha com sua própria força. As chamas se esvaíram frente à barreira mágica, permitindo ao herói divisar o dragão de cobre ainda sobre o morro, e as plantações ao seu redor sendo consumidas em chamas.
– Oh, vejam, a pequena maga Vallerie acha que já é crescida para enfrentar-me ! “, riu-se a besta, “Retornai à escola se queres sobreviver, criança !
– Apenas se também retornares a teu covil !!!
Rapidamente Valente se interpôs entre o dragão e a maga donzela, desembainhando sua cantante lâmina Deafsinger em ameaça à fera metálica:

“E lá vai ele, sem temor e sem receio,
Lutar contra o dragão enorme, virar lanche de recreio … ”

– Afasta-te, doce senhorita, permita que eu lide com o terrível Feusteor …
– É FEUERSTROM (=Fóierstrôm), cavaleiro ingênuo ! E saia da minha frente, deixa-me proteger os inocentes !!!
– Jamais ! Farei tudo para protegê-la !!!
– És surdo ? EU protegerei a vila ! TU deves sentar no chão e calar-te !!! Deixa-me lidar com o dragão !
– MORRA CRIATURA !!!! “, o cavaleiro reluzente cruzou o campo que o separava do morro com velocidade atlética, mas a subida ao dragão exigiu demais de seu corpo, impedindo-o de atacar rápido o suficiente. A criatura facilmente empurrou-o com uma garra, e o cavaleiro rolou morro abaixo como moeda em ladeira …
– Oh, homem ! Ponha-te em teu lugar e deixa-me pôr ordem na casa ! FEUERSTROM ! Pega tua caça e vai-te daqui sem destruir o trabalho de inocentes !
– Humana vil, entregarás teu companheiro de raça à morte certa ? Vós humanos me surpreendem a cada dia !
Valente ergueu-se de sua patética queda e caminhou até a garota. Seus olhos eram verdes como a folha do lírio, e os longos cabelos alvos como a luz das estrelas, e as feições tão doces quanto as pequenas aves canoras. Tão jovem, tão inocente ! Tão capaz de qualquer coisa para salvar seus congêneres ! Em sua fraqueza e desespero, entregaria o nobre cavaleiro para lutar ! Quanta honra !
– Não temas, donzela ! DRAGÃO ! AFASTA-TE E LUTAREMOS MAIS ADIANTE !
O réptil sorriu e virou-se, afastando-se da vila, invadindo a planície que se estendia além do morro. Teve de aguardar ainda quase por uma hora para que o pequeno humano chegasse ofegante ao local da batalha. Atrás dele seguia a jovem maga Vallerie.
– Não preciso … arf arf .. de tua ajuda … arf arf …
Um urro da criatura marcou o início da batalha … as chamas devastaram as plantas em todo o redor, só poupando o cavaleiro e a donzela por parte da magia que mais uma vez se fazia útil.
– … ou talvez tua beleza tenha alguma utilidade nestes campos infernais.
– Vá e luta como um cavaleiro de verdade, homem !
Valente obedeceu … correu em direção da criatura com a espada sonora em riste, correndo, atravessando o campo com toda a coragem dos nobres de armadura, avançando em direção ao inimigo sem temor, demonstrando a valentia que lhe emprestava o nome e seguindo em frente rapidamente no seu ataque …
“Oh, Branco, meu fiel cavalo, que fim levaste nas mãos daquela vil criatura ? ”
Ao final de longos minutos o atacante chegou próximo de seu alvo e procurou desferir um golpe … apenas para ouvir sua espada ganir de dor ao ricochetear nas escamas metálicas. Tentou ferir a criatura mais uma vez, e outra, mas os pedidos “Pára ! Pára!” de sua espada o impediram de seguir em seu inútil intento. Não demorou para que a dantesca garra novamente o lançasse metros adiante.
– És tolo, cavaleiro ? Deverias saber que os grandes dragões da dinastia de Meriliha só são mortos pelo interior !
– Oh, bem … “, Valente ergueu-se, ” Agradeço tua valiosa informação. Devo então confiar à minha fé a ajuda necessária para matar este réptil também ! Anjos da guarda ! Anjos meus que me foram legados por minha doce mãe em seu leito de morte ! Ajudai-me em minha missão de livrar o mundo deste mal ! Vinde a mim, ó, anjos !!!

… tu – tu – tu – tu …

– O que ? Em que errei ? Deixa-me tentar novamente … Anjos da guarda ! Anjos meus que me foram legados por minha doce mãe em seu leito de morte ! Abri teus ouvidos e ajudai-me em minha missão de livrar o mundo deste mal ! Vinde a mim, ó, anjos !!!

… tuuuut – tuuuut .. *click* “Você chamou os portões dos céus. Perdoa-nos, mas no momento nenhuma entidade angelical pode atender. Por favor, deixa teu recado após três ave-marias … ”

– Pelos santos, o que farei agora ?
– Abaixa !
O casal heróico jogou-se ao chão bem a tempo de escapar de uma bola de fogo, que foi estatelar-se na base do morro …
– CHEGA DE BRINCADEIRAS ! Cavaleiro ! Agora pagarás pela morte de meu irmão !
– Espera ! Permita que eu reze antes de minha morte ! Apenas três ave-marias !
– MORRA !!!! “, e junto às palavras mais uma labareda percorreu o ar com grande velocidade, encontrando porém a barreira mágica da maga antes de atingir seu objetivo.
– Já sei, cavaleiro … se fores engolido, talvez possa atingir o dragão por dentro …
– Piras, donzela ? Ele é chamas por dentro !
– Eu te protegerei com minha magia ! É tua única chance !
– Se assim me dizes … confiarei em teus olhos e tua doce voz …
– Aproxima-te com cautela, e quando ele se abaixar para lançar sua chama rente ao solo, lançarte-ei com minha magia para dentro da bocarra … meu escudo mágico te protegerá, não temas. Uma vez dentro, procura danificá-lo como podes ! Agora vai !
O cavaleiro partiu em seu ataque a Feuerstrom, pouco convencido da potência da magia da jovem garota, mas resoluto a seguir o pedido de uma donzela. Chegou junto do monstro procurando evitar os ataques de fogo, mas sem sucesso. Não fosse a magia de Vallerie, já teria queimado várias vezes. Porém o esforço de ambos não foi em vão … o cavaleiro conseguiu provocar o demônio e ser jogado para junto de seus dentes, arrastando-se para dentro. A magia da menina mostrou-se eficiente, protegendo- o de ser posto em chamas, mas pouco efeito tinha sobre o calor infernal ou as tentativas do monstro em expelir o humano …
Mas Valente prosseguiu em sua empreitada, e dentre os momentos tão terríveis de sua vida, jamais imaginou ter de ser engolido vivo por um dragão. Dentre o calor que insistia em fazê-lo sofrer e o ambiente inóspito que o fazia sufocar, o cavaleiro arrastou-se até ouvir as batidas surdas do grande coração bem próximo de si, onde enfiou sua fiel espada que emudecera frente à situação. O sangue ácido jorrou para cima de Valente, e desfez sua carne arrancando-lhe a vida mais uma vez … o corpo do dragão explodiu como vulcão, lançando labaredas e ácido por todo o redor, extinguindo plantas e animais, maga e vila, em um não pequeno raio de destruição.
E quando Valente abriu os olhos, a noite já havia chegado e soprava gelada sobre o campo devastado. Olhou ao seu redor e viu só escuridão. O que acontecera ?
– Vallerie !!! VALLERIE !!!! Vencemos, minha donzela ! Onde estás ?! Terá pensado que morri dentro do dragão ? Ao menos, Feustromor está tão morto quanto seu irmão … agora devo partir em busca de meu fiel garanhão, e resgatá-lo da posse daquela enganadora de inocentes …
– Aonde vais … “, dois enormes olhos dourados abriram-se dentre a escuridão, não longe de onde o cavaleiro estava. O cheiro de enxofre tornou-se mais forte, e a fraca luz da lua, parcialmente encoberta por nuvens de cinzas, mal fez distinguir as escamas metálicas em meio à escuridão. “… nossa luta não terminou.
– Não morres ? Como ?!
– Ouvi de um homem que como eu, não possuía o dom da morte. Parece que finalmente te encontro. E enfim poderei saciar meu desejo de matar-te vezes por conta, até cansar-me ! SOFRA, HUMANO !
E novas labaredas iluminaram o campo desértico, buscando sua vítima …

– a Meu Querido Valente –
– de Wyrm –

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