Brincando no Paraiso – por Demithri de Vitoriano / Wallace Pantoja

Quando ele foi dormir as horas mortas já quase se iam. Demithri encharcado de suor se jogou na cama e salivou um filete de sangue com certo asco. O sangue não tem o mesmo gosto para todos…
Eu fiquei ali só observando o cara, engraçado como vamos pegando no sono e mal nos damos conta, cascatas de lembranças correndo para a profundidade de nossos domínios, onde nada podemos controlar ou querer. Acompanhei sua viagem até quando não havia mais consciência, apenas exaustão.
Foi um dia muito longo, um dia que durou quarenta e três precisas horas:
Tudo começou com uma carta anônima, coisa de Ludens que gosta de aparecer! Alguém chamava Demithri para uma reunião importante, ele pareceu contrariado, aí chegou o Lucian com aquele jeito de playboy exótico descompromissado:
– E aí, mano? Qual é a boa de hoje?
– Adivinha?
– Um encontro?
– Hum-hu! – assentiu Demithri.
– Com quem?
– Quer mesmo saber?
Lucian riu meio sem graça.
– Quem poderia ser?
– Psique. – disse Demithri, seco, fingindo não perceber a máscara de ódio que fluía na venta do irmão.
– É?… – aquele “é” amarelo que nunca reflete conforto.
– Vou até lá.
– Deixe-me ver o recado.
Lucian correu a vista rapidamente sem se deter em nada particular.
– Mas não está assinado, como sabe que é de Psique?
– A letra meu irmão, a letra, como poderia esquecer esta letra?
Bom, foi até este ponto que as coisas transcorreram tranqüilas e cheias de muito sentido e lentidão.
Lucian disse que iria, Demithri disse não mas os dois já corriam a uns cento e vinte em plena Almirante Barroso, pista do meio, xingando aqueles que respeitavam a velocidade permitida, o carro não era exatamente deles, mas o lugar de encontro era longe demais para ir de ônibus. Pegaram a BR rumo à Salinas, balneário do interior, badalado, onde tudo é salgado.
Depois de duas horas estavam pisando na areia fofa, uma garrafa de 51 que rasgava goela abaixo queimando tudo até bater no estômago e fazer o céu ficar mais perto! Algumas mulheres na praia piscando de leve, os dois rindo, Lucian quase agarrando uma, Demithri puxando o mano, antes o dever, antes o dever, depois a sacanagem.
Uma igrejinha de pedra, sozinha e distante. Entraram com um pisão nas portinhas podres.
– Vamos logo acabar com esta brincadeira, Psique. – Demithri interrompeu a fala com um gole visceral de cachaça.
O lugar parecia vazio. Uma fraca luz entrando não sei da onde, pousei bem junto da entrada, ninguém notaria uma pipira aquela hora, né? Os dois olharam dum lado para o outro.
– Vamos menina, não temos o dia inteiro. Algumas putas lá atrás estão esperando minha “marota”! – Lucian mal conseguia disfarçar a fúria.
– Elas vão ter de esperar, mongol. – Alguém pendurado numa das vigas do teto. – Legal vocês terem vindo!
Demithri forçou a vista, a luz atrapalhava, aquela voz não era de Psique.
Lucian tropeçou para frente, percebeu outros ali.
– Te prepara, Demithri… acho que estamos fodidos!
– Há! – riu-se o Ludens pendurado na viga – Acertou na mosca!

***********

Três dias atrás (mas eu só soube disso quando tudo acabou):

Psique caminhava pela pracinha sem movimentação alguma, arredores de Sevilha, junto a um grande campo cor de ouro em plena manhã fervente de Andaluzia. Seus olhos apertados refletindo a força que fazia para estabelecer contato com um amigo, alguém que poderia encontrar Demithri e, quem sabe, até Lucian. Precisava avisa-los mas sabia que se não conseguisse a vibração correta a coisa ficaria feia! Não havia muito tempo, aqui era um bom lugar para não chamar a atenção de curiosos, de nada adiantava se esconder, eles a encontrariam, o tempo e a vibração eram as únicas questões que lhe ocupavam agora.
“Vamos, And! Vamos, Milleny! Vamos!”, sua vontade percorrendo distâncias inconcebíveis até o jovem e risonho And. Um sopro de vento esvoaçou seus cabelos longos e negros. Sentou no chão de pedra antiga e buscou o poder para alcançar o outro… “MILLENY.”, engoliu o vento, “Eu TE CHAMO.”
Foi então que ela avistou o grupo se deslocando na sua direção. Eles vinham pelo ar? Como!? Ludens dificilmente consegue tal proeza! Ela mesmo só viu três ou quatro fazerem isto em toda a sua trajetória pela Terra! Voar significa muitas coisas na noção vampírica: astúcia, controle, experiência e, sobretudo, poder.
Psique esboçou uma reação: grunhiu antes de vomitar sua telecinésia direto no peito de um deles, que balançou, quase caindo, porém continuou inteiro. A beldade negra emitiu um último e intenso chamado mental antes de ser atirada no campo de trigo e fazer correr sangue naquela quentura tão típica de Andaluzia, onde as coisas quase sempre são conquistadas com DOR.
– Lembra-se de mim, criança? – rasgou a camisa de seda colorida de Psique revelando a tatuagem feita a fogo, letra dum idioma desconhecido pelos que caminham na superfície de encontro a luz – Ainda está do jeitinho que deixei! – riu-se Nirvana, lambendo a letra escarlate entre os seios da deusa Psique.
A mulher entortou o beiço numa máscara de asco cegando com a luz e o Sol ardeu sobre os campos de ouro.

And Milleny sentiu aquele calor tomar conta de todo o seu corpo, a começar pelo peito e daí se espraiando para todo o resto. Envergou-se até suas articulações chegarem no limiar da dor, alguém enviara um chamado desesperado… só não conseguia distinguir quem era.
Sem perder tempo ele foi direto ao aeroporto, entendera a mensagem. Comprou uma passagem para São Paulo com os últimos tostões de dólares que tinha, embarcou naquele mesmo dia, chegando lá deveria roubar outra vez e viajar até Belém. Adeus Hungria, logo agora que ele pensava em explorar o Castelo do Drácula! Tudo bem, sempre há tempo para seres como ele.
Cochilava aos pedaços, aquele chamado era estranho, como se o destino dependesse dele, mas quando enviou um pensamento em concordância não obteve resposta, talvez o outro Ludens tenha se desligado, ou alguém desligou ele…
São Paulo
And nem deixa o Aeroporto, fica espreitando uma vítima com muita grana. Sem perder tempo a avista: certa madame com carradas de base no rosto e um batom cor de sangue que ofusca qualquer pretensão de elegância. Tem uma gorda quantia na bolsa, só uma ilusão, nada de mortes, apenas um roubo silencioso e delicado. Pronto.
Avião. Tentando se ajeitar na poltrona. Aquele calor outra vez:
ATENÇÂO!
Uma energia saltando de alguém ali dentro. And estica o pescoço, procura discretamente sem virar muito, força a mente em busca daquele pulso, está a sua frente, dá para ver a parte detrás das cabeças encostadas nas poltronas, só que a energia vem dum lugar vazio? VAZIO!?
And levanta, a curiosidade atiça-o. A aeromoça corre até ele:
“Senhor, não pode levantar agora. Já vamos decolar!”
“É rápido, só um momento…”
“Não, senhor. Para sua própria segurança, não!” , a mulher o empurra com cuidado até o assento. “Espere até decolarmos, por favor!”
Aqueles foram minutos de tensão extrema. And nunca gostou de decolagens, mas na ocasião a trepidação nem o preocupou, apertava os olhos na direção da poltrona vazia como que querendo enxergar através dela… “Vamos, decola desgraça! Decola, porcaria!”. A energia fluindo esquisita dali.
Quando o avião atingiu uma altura segura o vampiro bateu no cinto e levantou num pulo, precipitou-se direto para a poltrona, tropeçando e arregalando os olhos incrédulos quando viu aquilo:
Baixinho, por isso não dava para vê-lo de lá. Cabelos castanhos cacheados e uma roupa esquisitona, parecendo uma armadura de prata mal polida, dormia feito criança, mas não era um sono natural, alguém o dopara. Seus braços eram pequenos mas guardavam junto a si uma espada descomunal… aquela coisa não pertencia ao mundo, disso And teve certeza quando invadiu sua mente: ” Defensor gentil das donzelas oprimidas! Um Gala Seca de carteirinha! Seu nome cheirava boiolagem…”
And voltou desanimado para sua poltrona, um cavalo reluzente e um monte de merda ainda cascateavam daquela mente frívola, muitas mortes, muitas mesmo e ele ainda estava ali! And segurou até o momento que pôde, mas já não era possível, explodiu numa gargalhada descontrolada, todos olharam para ele, alguns até começaram a rir! And gritava, ria, lagrimava, ofegante, ria e ria:
– VALENTE! O NOME DAQUELA MINIATURA DE “DREG” É VALENTE!
O cavaleiro despertou com aquela algazarra, cheio de meleca nos olhos e com a espada quase da sua altura. As botas de prata pareciam do Bozo, seu saiote de malha de aço tilintando alegremente e o peitoral reduzia sua cabeça pela metade, apenas os olhos interrogativos saltando de dentro da cavidade da armadura: “QUI FOI?”. Todos, inclusive sua espada, diante daquele visão, abriram a boca numa risada delirante, o avião empinou para o céu, completamente desajeitado.

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Uma resposta to “Brincando no Paraiso – por Demithri de Vitoriano / Wallace Pantoja”

  1. Lemos ainda discorreu sobre Cibercultura na perspectiva de Macluhan, onde prioriza o debate do meio como extensão do homem.

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